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POLITIZAR A QUESTÃO AMBIENTAL JÁ!

por Gilberto Andrade de Abreu

Segunda-feira, 13 de Julho de 2015

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Atualmente, dentre os inúmeros problemas que afligem a Humanidade, a questão ambiental é, sem dúvida, a mais abrangente. Sobretudo porque envolve todos os aspectos da vida humana e justamente por isso é a mais politizável. Incompreensivelmente, no entanto, ainda não consta na agenda dos dirigentes mundiais.

Gilberto Andrade de Abreu

 

   

    Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras.( Estatutos do Homem – Thiago de Mello).

 

   Da afirmação aristotélica de que “tudo é político”, o pensador francês Michel Foucault aduziria “melhor dizer: nada é político, tudo é politizável, tudo pode tornar-se político.” Atualmente, dentre os inúmeros problemas que afligem a Humanidade, a questão ambiental é, sem dúvida, a mais abrangente. Sobretudo porque envolve todos os aspectos da vida humana e justamente por isso é a mais politizável. Incompreensivelmente, no entanto, ainda não consta na agenda dos dirigentes mundiais.

 

Em uma entrevista concedida ao jornal FSP, o professor da UFRJ, José Augusto Pádua, coloca devidamente o assunto. Ao dizer que um dos fenômenos menos interessantes deste momento no Mundo, em meio a eventos catastróficos, furacões, tsunamis, doenças epidemiológicas e até o que era implausível, seca no Amazonas, que ele denomina como “questões da vida” e as vê como uma explosão

da natureza, não encontram repercussão na política: Os sistemas e atores políticos não podem mais ignorar essas questões, mas, no entanto, não estão preparados para enfrentá-las. Há uma tradição de ver a política como uma relação, uma disputa, um jogo exclusivo dos seres humanos. Uma visão que considero antropoexclusivista, como se a política tratasse apenas dos recursos econômicos e do poder.”
 
   Em seguida, o professor aponta, com justeza, dois problemas que devem ser equacionados e compreendidos de maneira diferente. Um deles advém do mito moderno de que a natureza é inesgotável, de que o território é tão impressionantemente rico que, por mais que se destrua, sempre existirão recursos. O que, já se sabe, é um enorme equívoco. O outro, é a da absurda idéia de ver o bioma nativo como obstáculo que atrapalha o desenvolvimento econômico dos seres humanos.

 

   Por fim, os arranjos dos sistemas da natureza, nos fatos que estão ocorrendo planetariamente, são poderosos, porém muito frágeis. O entrelaçamento conspirativo de fatores naturais e humanos é o que explica o conjunto de fenômenos aos quais estamos assistindo. Atônitos. 

 

   Mais do que nunca, diz o professor Pádua: “precisamos entender o lugar do ser humano no sistema da vida do planeta e como a defesa de nossos interesses não pode se chocar com a manutenção desse sistema, que é a condição para a nossa vida.” Opinião em tudo coincidente com as de outros cientistas como James Lovelock e René Dumont e, infelizmente, poucos políticos, dentre os quais deve ser sempre lembrada a notável ex-Ministra norueguesa Gro Ellen Bruntland, sem a qual não teríamos a Agenda 21 e nem mesmo a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro.

 

   Teremos maior compreensão, de fato, se viermos a conjugar os movimentos da natureza e as ações humanas. Os impactos destas com as reações daquela. Se a questão social dominou a discussão política nos séculos XIX e XX, agora, de maneira inevitável, a ela terá que se somar a ambiental. Com toda a amplitude política e politizável.

 

 

BRASIL E INDONÉSIA: OS MAIORES VILÕES DO MUNDO

 

   O Protocolo de Kyoto com total e ampla razão tem sido saudado como a solução do problema da emissão de gases de estufa. Sim. De fato é a primeira tentativa de reversão tomada por um conjunto de dezenas de países, apesar do descaso irresponsável do governo dos Estados Unidos. No entanto, a sua modesta projeção de reduzir em 5,2% as emissões, com base no ano de 1990, em 2012, é quase ridícula. Sobretudo porque o volume a ser reduzido representará, apenas, três quartas partes do que o Brasil e a Indonésia emitem em seus criminosos incêndios florestais.

 

   As florestas das áreas quentes, tropicais e equatoriais, corretamente denominadas em inglês de “rain forest” – floresta úmida -, não são, como já se imaginou, os “pulmões do Mundo”. No entanto, elas regulam a umidade do planeta. Depois da trágica devastação da floresta equatorial africana, as fabulosas florestas da Amazônia brasileira e a equatorial da Indonésia, ardem em chamas.

 

   Apesar das pressões internacionais, os respectivos governos são ineptos ou coniventes com o que já é considerado um “crime contra a Humanidade”. Interesses madeireiros, mineradores e agro-pecuários se juntam nessa pilhagem que, mais do que nunca, precisa ser contida. As menores dimensões do arquipélago da Indonésia e a sua maior densidade populacional fazem com que os incêndios florestais afetem diretamente a vida de centenas de milhões de pessoas. As ilhas de Kalimantan, Sumatra, de Java, Sulawesi e a metade ocidental da Nova Guiné estão sendo, literalmente, devastadas pelo fogo. As atividades humanas, incluindo grandes cidades e dezenas de aeroportos, estão sendo diariamente prejudicadas, afetando, inclusive, países vizinhos, como a Malásia e Cingapura.

 

   Recente estudo publicado pela revista Science, assinada por pesquisadores americanos e brasileiros, revela que a devastação na Amazônia brasileira é duas vezes maior do que se acreditava. As madeireiras vêm praticando o chamado “corte seletivo”, no mais das vezes, ilegal, extraindo determinados tipos de árvores mais valiosas. As copas das árvores restantes encobrem o estrago, o que não é captado por satélites. Depois de tornada rarefeita e empobrecida, a floresta é queimada para expandir o agro-negócio da soja e da pecuária de corte. O volume de emissões de CO2 na Amazônia, já coloca o Brasil entre os dez maiores emissores, reforçando o argumento do governo americano de que não só os países ricos devem reduzi-las. Os dados revelados pela Science, já tinham provocado semelhante denúncia da revista Nature, em 1999, e o que é pior, confirmados pelo governo brasileiro.

 

   O jornalista Washington Novaes alerta que as ações governamentais têm sido ao longo dos anos, espasmódicas. Qualquer denúncia internacional provoca uma intervenção mais dura, logo seguida de outro período de devastação. O Ministério do Meio Ambiente, que conta com absurdos 0,5% do orçamento federal, quase sempre contingenciados em favor do insano superávit fiscal, em favor dos serviços das dívidas, interna e externa, é incapaz de implementar seus projetos e fiscalizar a região. Apesar da boa vontade da ex-Ministra Marina Silva e de seu sucessor, Carlos Minc, os seus próprios técnicos defendem a perigosa idéia de concessão de florestas em terras públicas.

 

   Cientistas brasileiros, participantes da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) defendem que o maior bioma brasileiro seja transformado em “laboratório em pé”, ou seja, em um gigantesco campo de pesquisas bio-tecnológicas. O que seria um extraordinário avanço científico, com inegáveis benefícios econômicos. Porém, a avidez e o imediatismo dos interesses do agro-negócio conspiram contra isso, sob a passividade da maioria das pessoas, iludida de que o melhor é exportar soja e carne. Tremenda estupidez, pois é o mesmo que exportar água e proteína. A mentalidade colonial permanece nos colonizados... E Lula ri, provocando risos idiotas de quem o aplaude. Não conseguem politizar o que é mais politizável!

 

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